Novembro 27th, 2016 Por Cláudio Silva

26 de novembro de 2016

O SENHOR MALAGUEIRA.

supershowcavaco malagueira

O Sr. Malagueira… a notícia da sua violenta morte apanhou-me de surpresa (como a todos) e no dia de anos do Mário! Tem sido difícil encontrar palavras para vir aqui falar do Sr. Malagueira, mas depois de ler tanta asneira nos jornais e de constatar tanta falta de conhecimento sobre a sua pessoa e o seu trabalho, aqui estou eu!

Para mim, tudo começou numa pequena oficina de reparações de televisões – a SOS Televisão, na Av. São João de Deus – serviço que usávamos cá por casa quando as televisões ainda valiam alguma coisa e podiam ser reparadas; foi aí que conheci aquele homem baixinho e de sorriso gigante que era sempre muito atencioso. Anos mais tarde, já eu trabalhava nos espectáculos, percebi que o Sr. Malagueira (dos PAs) era aquele homem simpático das televisões!

A oficina de televisões ainda se manteve por mais uns anitos, mas algures, na segunda metade anos 80, o Sr. Malagueira aventurou-se e criou uma empresa de audiovisuais e também de produção de espectáculos (a Supershow), tendo sido responsável por grandes eventos e ainda pelas principais festas e feiras do País, sobretudo na década de 90. A empresa foi crescendo e nela foram formados muitos técnicos que ainda hoje são pilares de outras empresas ou operadores de artistas reconhecidos em Portugal e no estrangeiro; o próprio Rocha vestiu a camisola do Sr. Malagueira e pelas suas mãos foram formados muitos técnicos de luz…

Os desafios para o Sr. Malagueira não eram um obstáculo e investia, investia e investia sempre que lhe apresentavam um projecto maior; não pensava nos riscos, pensava sim em criar algo maior e agradar os clientes, mesmo que pusesse a cabeça no cepo por eles ( e houve bem quem se aproveitasse desta sua bondade ).
Um crescimento como se não houvesse amanhã (porque para o Sr. Malagueira não havia amanhã) e toda uma organização do País a vários níveis legais, terá levado a que o Sr. Malagueira tenha tido de enfrentar dificuldades que julgo nunca ter imaginado possíveis … se as resolveu da melhor maneira? Talvez não. Resolveu como pode e conseguiu ou não resolveu de todo… mas ainda assim, sempre que alguém precisava dele, a sua casa estava aberta e a sua bondade tudo permitia.

Gostaria de ver muitos artistas, técnicos, agentes, produtores, Presidentes de Câmaras, produtores de TV, etc a homenagear devidamente este homem.

Eu quero agradecer-lhe a amizade que teve para com o pai do meu filho e as várias oportunidades que lhe deu para recomeçar a sua vida (o Carlos adorava-o, mas havia algo que adorava mais… ). Quero agradecer-lhe todas as vezes que lhe alugava som e luz para os concertos dos Censurados e do Jorge Palma, num período em que trabalhei sozinha, em que lhe pagava o que podia e quanto ao material dizia-me assim: “O Rocha, o Bourbon e o Filipe que vejam o que há em armazém e levem o que quiserem” – houve mesmo um dia, o último concerto dos Censurados, que aconteceu nos Penicheiros no Barreiro, em que levámos tanto material, que não cabia nem mais uma lâmpada! Quero agradecer-lhe o carinho que tinha pelo meu filho e o carinho que sei que tinha por mim e lembro-me bem da última vez que trabalhámos juntos; foi na Feira de São Mateus em Elvas, com a Mafalda Veiga – ele estava todo contente:* Ainda me visitou e à Lena na Radar dos Sons, já ele estava em Moçambique e, de alguma forma, sentiu necessidade de falar dos seus feitos e nós ouvimos, pois sabemos o quanto a memória das gentes é fraca e como é mais fácil apontar defeitos! Mas estava cheio de ideias grandes 😉

Também discutimos muito, sobretudo por causa de uma mesa de monitores que tinha sempre os mesmos canais avariados! Mas depois da discussão, vinha sempre aquele sorriso e aquela ternura que desarmava qualquer um!

O Sr. Malagueira não era perfeito; ninguém é. Teve as suas trapalhices, teve. Mas há algo incontornável, o tamanho do seu coração, a sua coragem e o seu legado a toda a família da estrada, da música, do cinema, do teatro, da TV ( a sua, como a de todos nós, terá ficado em défice )! Não merecia a morte violenta que teve, mas merece ser recordado pelo bom homem que era e o tempo para isso é agora.

Sr. Malagueira, um enorme abraço, obrigada e até sempre, Ana Moitinho

ana moitinho

Texto publicado com a devida autorização da autora.

Ana Moitinho sempre trabalhou em agências de concertos, como Manager, Tour Manager e Road Manager nas empresas:

  • Concerto – 1985
  • Ai Música – 1986
  • Basílio Fernandes – 1986 a 1992
  • Ana Moitinho Management 1992 a 1995
  • Encore 1995 a 1999
  • Oficina da Ilusão 1999 a 2009
  • Radar dos Sons -desde Janeiro de 2010

alemmar barreiro anna moitinho malagueira

1998 – Concerto dos Alemmar, no Barreiro, com equipamento do Sr Malagueira (Supershow), som de frente de Cláudio Silva e com Ana Moitinho como Road Manager.

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